Lolita, uma análise – Texto de J. R.

11 jun

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“E não lamento C.Q., alguém tinha que escolher entre ele e  H. H., e alguém queria que H. H. existisse pelo menos mais uns dois meses para fazer com que você pudesse viver na mente das gerações futuras. Estou pensando em arcanjos e anjos, no  segredo de duráveis pigmentos, em sonetos proféticos, no refúgio da arte. E esta é a única imortalidade que você e eu podemos compartilhar, minha Lolita”

É essa a narrativa de Humbert Humbert cujas memórias amargas contam o seu relacionamento com a garota de doze anos Dolores Haze. Um clássico da literatura mundial e levado as telas por Stanley Kubrick, que imortalizou também no cinema essa história universal que tem uma classificação entre as melhores obras literárias já feitas. Não conseguimos chegar a nenhum ponto de vista maniqueísta ao final do livro. Ele é escrito em primeira pessoa por H., um homem discreto e solitário e já sabemos no inicio que este está na cadeia, porém desconhecemos o motivo. Ao longo do livro conhecemos um pouco da personalidade e infância do personagem “folheio sem cessar essa miseráveis lembranças e pergunto repetidamente a mim mesmo se foi então no brilho daquele verão remoto que começou a brecha em minha vida, ou se acaso foi o meu excessivo desejo por aquela criança, apenas a primeira manifestação de uma inerente singularidade“.

Essa dúvida a respeito do estopim de seus desejos sexuais por garotas que estão na fase anterior a puberdade,  entre os 12 e 15 anos, chamadas por ele nymphets ou demoníacas, H. coloca após revelar a morte de sua primeira namoradinha, episódio traumático que será um fantasma na vida dele. O livro mistura elementos de casualidade ordinária, com suspense e uma espécie de roadie book. Um caso criminal: a infância de Lolita foi roubada brutalmente pra sempre sem nenhum direito de escolha. Um caso de amor: H. era completamente apaixonado por ela, uma espécie de obsessão egoísta, mas nem por isso ausente de amor, já que não sabemos nada a respeito de Lo, não a conhecemos porque o  narrador também não a conhece, mas não o condenamos por isso afinal para ele bastava a presença de Dolores e nenhuma pergunta precisava ser feita. Há certos momentos de malícia associados há ela mas que se tratando de uma menina de 12 anos possuem uma conotação inocente se não nos atos, nas intenções e  são a ela inerentes, não podemos ignorar a ingenuidade escondida por trás dessa suposta pretensão – como nos momentos em que Lolita disputa  a tenção de H. com a mãe ( H. no decorrer da história se casa com a mãe de Dolores). Ela foi subjugada e suas vontades anuladas em toda a história, e por isso o livro é tão bom.  H. só percebe isso no fim trágico, como certa vez em uma conversa casual quando lembra de Lolita ter dito a amiga que o que há de terrível na morte é que a gente fica entregue a si mesma.  Uma criança potencialmente  profunda ou só assustada?  Não sabemos. Mas não sabemos também o quanto de culpa existe na  aquisição dessa posterior  perspectiva por parte de H.

“Guardo ainda outras lembranças enevoadas que se desdobram agora em monstros de dor desprovidos de membros” A parte mais dolorosa e triste que o leitor irá de concordar é quando H. confessa mediante dolorosa autocrítica suas emoções “tomado por um sentimento de afeto e ternura, pedia-lhe mudamente que ela o abençoasse, tinha um sentimento de vergonha, mas no auge dessa agoniada  e desesperada com a lama prestes a arrepender-se de forma horrorosa a luxúria voltava a nascer “Oh não!” exclamava Lolita com um suspiro dirigido ao céu. E num momento a ternura e o azul- tudo se despedaçava”. Talvez ele a amasse a maneira dele, de forma apaixonada, porém egoísta e doentia tanto nos excessos quanto no fato de ela ser uma criança ainda. Isso fica claro quando mesmo depois de alguns anos, quando eles se reveem e ela não corresponde mais aos paradigmas sexuais de H., e ainda sim ele implora para que ela fique ao seu lado. Nunca saberemos, mas a respeito de Lolita tudo que sabemos é o que lhe foi roubado. Quanto ao livro é pura poesia, inspiração que somente alguém – deixando de lado as minucias e os detalhes – completamente apaixonado como H. poderia ter escrito.

“Lolita, luz da minha vida, fogo de meu lombo. Meu pecado, minha alma. Lolita: a ponta da língua fazendo uma viagem de três passos pelo céu da boca, a fim de bater de leve, no terceiro, de encontro aos dentes. LO.LI.TA.”

 

Texto de J. R.

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