Luar do Sertão

8 maio

Por esses dias, ao voltar para minha casa devido a um feriado, percebi o quanto aprecio a vida no interior. Não em todo lugar do interior, mas em suas pequenas cidades. Não que seja saudosismo do lar, aliás, talvez até seja um pouco de saudosismo, mas não apenas isso. É uma sensação bastante agradável estar em uma cidade pequena. Aqui é como se você entrasse em um mundo à parte. A natureza está mais presente e mais próxima das pessoas. Basta sair do pequeno centro, onde sempre há uma praça em frente da igreja matriz, e caminhar um pouco. Mas é preciso caminhar. De carro você está realmente apreciando a natureza, mas a pé você participa dela, está em contato direto com ela, e interage junto a ela.

Geralmente há morros descampados, árvores esparsas, alguma pequena mata ainda de pé, um riacho que corre preguiçoso e indiferente ao tempo, um vento morno e persistente, estradas de terra batida que levantam poeira, e acima de tudo, a luz. É uma luz diferente aquela que chega no sertão. O sol é mais claro, e incide com toda a sua majestade em raios fúlgidos, como que cobrindo a tudo e a todos em uma manta luminosa. As árvores brilham mais. Suas folhas refletem um verde brilhante inigualável, e dá vontade de ficar parado contemplando a luz diáfana que chega até o chão, depois de passar pelas folhagens e ramos.

Isso não é apenas durante o dia. À noite o espetáculo não é menos pomposo. Um céu recheado de estrelas, das mais tênues até a mais luminosa. Astros de muito longe, que atingem este pequeno pedaço azul na imensidão do cosmos. É triste a realidade de gerações de crianças que cresceram sem essa presença, em cidades iluminadas que ofuscam o brilho calmo e cintilante das estrelas. Sem contar ainda a lua, a rainha das noites, cantada em prosa e verso, inspiração para amantes e poetas. Sua luz e seu brilho chegam a deixar visível a nossa sombra. É como diz a primorosa poética presente na toada Luar do Sertão, composição das mais belas de toda a música caipira:

Ai que saudade do luar da minha terra / Lá na serra branquejando / Folhas secas pelo chão / Este luar cá da cidade tão escuro / Não tem aquela saudade / Do luar lá do sertão / Não há, oh gente, oh não / Luar como este do sertão

E realmente não há. O interior traz todo um novo jeito de encarar a vida. É bem marcante a saudade. A saudade! Palavra bela e triste, que só existe na nossa doce e pitoresca língua portuguesa, provavelmente ligada aos descobrimentos lusitanos, que esteve muito presente para definir a solidão dos portugueses numa terra estranha, longe de seus entes queridos. Define a melancolia causada pela lembrança. O sertanejo é um ser saudoso por natureza. A lembrança da terra de sua infância, os descaminhos da vida, as pessoas queridas deixadas para trás. Toda essa tristeza é descarregada no fim do dia, durante algum magnífico pôr-do-sol, quando a lida na roça terminou. Ele pega sua viola, e ponteia suas mágoas, em modas que denotam a ampla sabedoria cabocla, gênese dos conhecimentos indígenas e portugueses.

É uma sensação realmente indescritível estar no meio disso. Um dos lugares em que me sinto mais realizado é no mato. Um sentimento de calma, leveza, paz de espírito me invade toda vez que lá estou. É como se não precisasse de mais nada, como se todas as inquietações da vida sumissem, e em seu lugar sobrevém um bem-estar, um ânimo por andar, trilhar, subir, pular, descobrir. Poucas coisas me realizam mais do que isso. E essa talvez seja a grande sacada da vida, as coisas simples e inexplicáveis que nos deixam bem. Gosto bastante de estar em meio as pessoas, em cidades maiores. Mas o interior sempre estará guardado na minha lembrança, como um porto seguro para os destinos do futuro, suas perdas e ganhos e suas desventuras.

Texto de Lucas Mendes

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