Conversas com a Morte – Parte III

1 maio

conversas com a morte vinheta

Outro terrorista maluco que ganha às páginas dos jornais. Desta vez foi um atentado à bomba que atingiu um evento qualquer que acontecia em… Onde mesmo? Nem sei mais. Parece já ter virado um hábito, nem nos surpreendemos. Agora começa tudo de novo, um grupo radical assumirá a autoria do ataque, simpatizantes queimaram bandeiras em celebração, a ONU, o Vaticano e uma infinidade de políticos e ONGs sem importância condenarão o atentado e por fim um governo totalitário vestido de trajes democráticos atacará ferozmente um país cheio de água negra com a desculpa que a guerra manterá a paz. Meio ridículo se você pensar bem… Diante de tudo, foi impossível conter meu assombro.

– Meu Deus.

– Deus? Não sabia que você era do tipo religioso.

Desta vez admito que ele conseguiu me assustar. Não foi o fato de ele ter surgido do nada ao meu lado, já havia me acostumado com isso. É que desta vez ele não estava como sempre, parecia mais sombrio eu acho. Suas roupas, seus modos, até suas expressões estavam estranhas. Eu não sabia bem o que era, mas tinha certeza que havia algo diferente em meu convidado…

– Então é de religião que iremos tratar hoje?

– Para ser sincero prefiro evitar esse tema, não gosto de falar a respeito de bobagens. Além do mais, tive muito trabalho hoje.

– Sim, eu vi nos jornais.

– Imagino que sim. É incrível, mas a estupidez humana consegue me surpreender a cada dia. Olha não gosto mesmo de falar de religião, mas admito que achei bem interessante que a primeira coisa que ouvi de você hoje, foi um clamor a uma divindade.

– Por quê? Pelo que sei, esta é uma expressão bem comum.

– Por isso mesmo. Ela é extremamente comum… É engraçado pensar o quanto a figura de deus está ligada a cultura humana. Acho que vocês dão créditos demais a algo que pode nem existir.

Ri enquanto ele falava.

– Achei que não quisesse falar de religião.

– Mudei de ideia.

– Entendo. Você não crê em Deus?

– Sabe, não sei ao certo. Acho que não consigo crer naquele deus que é passado pelas religiões modernas. Ele me parece tão… cruel. Veja por exemplo o cara que orquestrou este ataque. Quem você acha que deu as ordens a ele?

– Deus?

– Pelo menos na cabeça dele, sim. Pense bem, é possível que ele achasse que era apenas um instrumento nas mãos de uma força maior. Logo, quem foi o responsável, a peça ou o jogador.

– Pode até fazer sentido, mas até onde que eu sei, nenhuma religião endossa atos como estes.

– Mais ou menos. Essas ideias que discutimos por exemplo. Imagine que elas alcançassem um grande número de pessoas, quantas interpretações diferentes teriam? Interpretações que muitas vezes não teriam nada haver com você ou comigo. Com as religiões é assim. Alem do mais, o ser humano tem certa tendência ao caos e ao ódio. Por isso a figura de deus existe, e mais, por isso que o inferno existe… Se não fosse assim, não tenho dúvidas que vocês já teriam se destruído há muito tempo. Deixe-me dar uma visão mais ampla disso tudo.

Neste momento ele colocou uma espécie de manto ou véu diante de meus olhos, impedindo minha visão. Quando ele retirou, instantes depois, não estava mais em meu quarto. Estava em um tipo de laboratório, daqueles onde se fazem os experimentos e testes que as entidades de proteção dos animais tanto odeiam. A minha frente havia uma redoma de vidro dividida em duas por uma tabua negra. Dentro havia dois grupos de ratos, cada um de um lado, um branco e outro negro.

– Que espécies são estas?

– Não me admira que você não conheça. É uma espécie nova, mais inteligente e evoluída em comparação as demais… Bom, mais ou menos. Eu batizei de Rattus Sapiens.

 Rattus Sapiens? Sutileza não é seu ponto forte. Mas me diga uma coisa, testes assim não são realizados com camundongos?

– Realmente, mas como eu disse esta é uma espécie nova, e se encaixa melhor no meu experimento por conta de uma característica que você achará bem interessante. Veja só.

Ele retirou a tabua que separava os dois grupos de ratos, expondo um ao outro. Em poucos instantes, os ratos se amontoaram em torno de seu próprio grupo em cada um dos extremos da redoma, tomando assim o máximo de distância possível entre eles, sendo que nenhum deles tinha coragem de sair de seu próprio amontoado. Mesmo sendo da mesma espécie, nenhum deles tinha coragem de interagir com o outro grupo.

– Viu só? A desconfiança e o medo pairam em ambos os grupos, mesmo eles sendo basicamente iguais, só mudando a cor. Agora veja o que acontece com todo esse medo quando existe uma certa… motivação em jogo.

Neste instante, meu companheiro colocou no meio da redoma um prato cheio de grãos, suficientes para alimentar os dois grupos com facilidade e ainda sobrar. Mesmo assim, no momento que viram o prato com a comida, o comportamento mudou. As duas populações avançaram ferozmente em direção ao prato, mas ao invés de simplesmente comerem juntos, começaram a se atacar, com as unhas e as presas, visando matar os rivais, numa cena grotesca e enojante. Ao fim de dez minutos, restavam somente um rato branco que ainda lutava contra dois ratos negros. Entretanto, os três estavam tão machucados, que parecia impossível para qualquer vencedor aproveitar os despojos. Eles iriam morrer, e o prato permaneceria cheio, do mesmo modo que quando o conflito começou.

– Realmente incrível.

– Não é? Acho que me enganei… Qualquer outra espécie iria ficar feliz em dividir o alimento, desde que também se alimentasse. Estes pequenos ratos não. Preferiram morrer a aceitar a presença do outro. Talvez eles não fossem tão evoluídos assim…

– Acho que não.

Dito isso, tudo ao meu redor se fragmentou. Estava de volta ao meu quarto. Meu companheiro parecia ter recuperado a feição serena que lhe era de praxe.

– Sabe… Talvez eu também estivesse errado sobre Deus. Talvez ele até exista… Acho que ele só está com muito medo de vocês.

Ele se sentou ao meu lado, na tela do meu computador uma nova notícia. Cinco pessoas da mesma família haviam sido mortas em uma chacina em São Paulo. Segundo a polícia o motivo do crime foi um desentendimento com um dos vizinhos por conta de um jogo de futebol… Rattus Sapiens… Realmente sutileza não é o forte dele.

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