Conversas com a Morte – Parte II

23 abr

conversas com a morte vinheta

Cada vez mais me convenço que habilidade social não é uma das qualidades de minhas alucinações. Pensando bem, esse também não é meu ponto forte, mas ficar me encarando por mais de 10 minutos enquanto escrevo não é lá muito agradável.
– O que você está escrevendo ai? Algo sobre mim?
– Por que acha que é sobre você?
– E sobre o que mais seria? Cá pra nós, ultimamente você estava sem ideias… Ai eu apareci. E olha que pra falar a verdade, acho que essa ideia sequer é sua.
– Que?
Ele riu.
– Você talvez tenha visto ou ouvido algo assim em algum lugar, só não se lembra… É típico do homem fazer isso. No fim das contas, você realmente acha que aquilo é algo que você criou, mesmo não sendo.
– Entendo.
– Alias, pra dizer a verdade, não acho que você teria a capacidade de criar algo tão complexo quanto eu.
– Você realmente tirou o dia pra me encher não é mesmo?
– Criança, não é você mesmo que diz que sou apenas uma alucinação sua. Logo, tudo o que digo, tudo o que sou é fruto da sua cabeça… Não sou eu que penso assim, é você. Na verdade, nós dois sabemos que tudo o que eu digo é verdade. Você acha que tem algum talento? Existem milhões de pessoas no mundo com o dobro… Não, o triplo da sua genialidade. Comparado a elas, estas palavras desconexas, estas linhas mal escritas não são nada.
– E daí? Escrevo pra mim mesmo. Por meus próprios motivos.
– Isso é o que você diz, mas sabe que não é verdade. Você escreve estas porcarias pras pessoas verem e te elogiarem. Dizerem que você é um grande escritor, que você tem um grande talento… Você faz tudo pra chamar atenção. Mas mesmo assim…
– Mesmo assim?
– Eu lhe disse uma vez que ma definir como uma mera alucinação é quase uma ofensa, lembra-se? Eu disse por um motivo muito simples… Você não tem controle sobre mim, eu escolhi você. Eu escolhi falar com você. Você é apenas uma forma de me entreter. Mas devo admitir que você pelo menos me diverte. Veja eles – Ele apontou a meus colegas que estavam na sala enquanto eu digito – Cada um deles perdidos em suas fantasias, assistindo suas caixas de Pandora se abrirem em suas frentes. Totalmente entediantes cada um deles. E é nesse ponto que vocês se diferenciam. Você não me irrita… Tanto.
– Caixa de Pandora não é?
– A caixa de todos os males. Você sabe qual é o maior mal que aflige a humanidade nos dias de hoje?
– Qual?
–A ignorância… Todos estão tão preocupados com suas vidinhas medíocres que não buscam conhecimento, ou mesmo compreender outros pensamentos. Sabe qual é o resultado disto?
Preconceito, intolerância, estupidez. Eles pegam algumas palavras escritas em um velho livro empoeirado e faz daquilo um manual macabro que só sabe perpetuar o ódio e a escravidão.
– Tenho que admitir que essas caixas, como você as chamam, não ajudam muito.
– Pra dizer o mínimo. Elas emburrecem ao mesmo tempo em que entretém. Escravizam ao mesmo tempo em que divertem. Chega a amedrontar imaginar aonde isso vai dar. Por isso gosto tanto de falar com você… Você não é tão alienado. Pelo menos tem alguma consciência… Talvez mais que alguma.
– Talvez… Quem sabe?
– Em breve saberei… Sou realmente bom nisso, sou bom em conhecer as pessoas, em entendê-las.
– Não, você não é… Você é apenas uma alucinação, fruto da minha cabeça, de alguma paranoia ou problema psicológico meu.
Nesta hora ele pareceu realmente incomodado com o que eu disse.
– Pare de tentar simplificar tanto. Nem eu, nem você somos tão simples assim. Sabe disso muito bem.
– Talvez.
– Além do mais, se você estivesse incomodado tanto assim comigo, sabe muito bem como me mandar embora… Na verdade é bem simples.
– Basta que eu volte a aceitar as regras, que eu volte a abrir minha caixa.
– O problema não é a caixa, é o amor a ela. É a deixar pensar por você, ela tomar suas decisões… Na verdade é mais simples, é mais fácil assim. Isso me irrita um pouco em vocês… Sempre em busca dos caminhos mais fáceis. Não se esforçam, tentam sempre dar um jeitinho. Mas, fazer o que não é? É típico de vocês, de sua espécie.
– De minha espécie… Você adora usar esse argumento.
– Falha minha. Peço perdão, talvez seja uma tendência humana generalizar as coisas.
– Humana? Agora você é humano? Realmente é difícil te entender.
– Isso porque é difícil te entender… Lembre-se, eu sou parte de você. Mas ao mesmo tempo…
– Ao mesmo tempo você é algo que eu não controlo.
– Exatamente. Sou como se fosse o demônio oculto na sua alma. A própria forma como me vê, como a personificação da morte, é suficiente pra deixar a maioria das pessoas assustadas, mas não com você, acho inclusive que você aprecia minha presença. Tenho essa impressão. Afinal de contas, não existem muitos os que são como você. Não são muitos os que têm coragem de se
libertarem de suas amarras, de suas correntes. Alias, deixe-me mostrar uma coisa. Olhe mais uma vez para eles.
Quando olhei para meus colegas eles não estavam do mesmo modo. Havia cordões ou fios, sei lá, amarrados em suas mãos, pés, troncos, cabeças. O mais assustador eram os fios que saiam de seus olhos e bocas e se entrelaçavam… De fato era uma cena grotesca.
– Agora você entende? Todos eles… Escravizados, presos a hábitos, rotinas, dogmas. Um grande homem propõe alguns termos em um contrato e assina com tinta vermelha e por mais de dois anos vocês deturpam suas palavras. E é com base nessa deturpação, nessas mentiras, que vocês norteiam suas vidas. É triste pensar nisso… Bom, acho que está ficando tarde, melhor eu ir embora. Se precisar de mais alguma coisa… Estarei por perto. Até a próxima criança.
Novamente ele esvoaçou no ar, desapareceu da mesma forma que da última vez. Quanto a mim, simplesmente sai da frente da TV.

Texto de Rafael de Paula

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