Conversas com a Morte – Parte I

15 abr

conversas com a morte vinheta

– Você consegue imaginar quantas pessoas existem no mundo neste exato momento?

Ele finalmente falou. Já havia perdido as contas de quanto tempo ele ficou ali, parado, apenas me encarando, por assim dizer. Nem sei se é possível afirmar isso. Não consigo ver seus olhos, apenas meu reflexo em seus óculos circulares. Por estranho que pareça, apesar de ser a primeira vez que o vejo assim, tão perto, não sinto medo, mas admito que sua presença me incomoda.

– Mais de oito bilhões – ele continuou – Oito bilhões de pessoas. Você tem alguma noção do que é isso? É quase inimaginável para alguém como você visualizar um número como este.

– Alguém como eu?

– Não me leve a mal. Não tenho a menor intenção de ofendê-lo, mas você é uma criatura de pensamento limitado. E não me refiro apenas a você, esta é uma das maiores e mais evidentes marcas de sua espécie. O ser humano é assim.

– Se você diz. Alias quem é você?

– Por que me pergunta o que já sabe a resposta?

Ele sorriu enquanto eu tentava analisar um pouco mais meu visitante, aquele homem vestido elegantemente com um smoking negro, cartola e grandes óculos. Dei de ombros.

– Então no fim você é apenas um sonho, ou talvez uma alucinação.

– É possível, afinal você nunca foi um modelo de sanidade, mas acho que me definir como uma mera alucinação, ou mesmo um sonho, é fazer pouco caso de mim. Não criança, eu sou mais do que isso… Mas para ser sincero, o que eu sou não importa muito neste momento.

– Talvez então, seja melhor perguntar por que você esta aqui.

– Diga você.

– Eu?

– Sim você. É a primeira vez na sua vida que você deixou de me ignorar, que você olhou para mim. Mesmo assim estou realmente admirado, a maioria das pessoas, principalmente com sua idade, simplesmente finge que eu não existo até que chegue um momento em que não conseguem mais. Até que chegue um ponto onde tudo o que reste, sou eu.

– Entendo. Mas devo admitir que até o momento você só levantou mais dúvidas, ao invés de responde-las.

Ele riu novamente.

– Esse é o problema com vocês. Estão sempre tão ocupados em busca de respostas. A maioria das vezes, as questões nem são tão importantes assim. É realmente uma criatura curiosa o ser humano.

Desta vez eu que não contive o riso.

– Você fica falando essas coisas como se tivesse toda a propriedade do mundo, como se fosse uma espécie de deus, mas até onde que eu saiba você é apenas uma ilusão, uma ideia.

– Sua ideia. Estou aqui porque você quer que eu esteja. Você se acha muito especial, mas lá no fundo você sabe que não é. Você é apenas um grão de areia, igual a tantos outros. Eu sou o seu diferencial. É a minha presença que faz você ser quem você é. É a minha sombra, que te faz se esforçar pra deixar uma marca no mundo.

Fico em silêncio. Toda essa perspectiva me assusta. Nunca tinha parado para pensar em tudo isso. Quanto tempo ainda me resta. Talvez seja esta a maior maldição do homem. Ter ciência da morte, mas não saber quando ela virá… Morte, palavra engraçada. Tão aterrorizadora que preferimos ignora-la, fingir que ela não existe… Mas o gozado, é que quando ela está a sua frente, nem é tão amedrontadora assim. É apenas um simpático senhor, de smoking negro, cartola, grandes óculos redondos e segurando um relógio de bolso… Relógio? Sim, há um relógio em sua mão. Como eu não havia reparado antes?

– Ah, finalmente você o vê? Isso é bom… Tomou ciência de quem eu sou, mas principalmente de quem você é… Bom, mas já está ficando tarde e eu sei que você tem outros compromissos.

– Posso te perguntar mais uma coisa?

– Claro.

– O que eu faço agora?

Mais uma vez ele sorriu, mas desta vez foi diferente. Nas vezes anteriores havia um cinismo perturbador em seu gesto. Cinismo este que desapareceu, deu lugar a um sorriso doce, quase que patriarcal. Eu finalmente pude ver os seus olhos.

– Você não entende criança? Ver este relógio significa que você agora tem ciência que não é eterno. Que um dia, seja daqui a cinquenta anos, seja daqui a uma semana, você, como todas as pessoas, vai morrer. Mas isso tem seu lado positivo. Você pode fazer o que quiser, sem mais se preocupar com a opinião alheia. Seu mundo é você e ninguém mais. Isso é liberdade. Vocês são realmente criaturas curiosas…

Ele disse isso enquanto se desfazia no ar, como fumaça. Acho que voltarei a conversar com ele algum dia, mas até lá… tenho toda minha vida pra aproveitar.

Texto de Rafael de Paula.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: