Por que Deus mataria John Lennon? E outros pensamentos desnecessários

11 abr

Deus, o todo poderoso, na primeira semana do último mês de 1980, sem nada o que fazer, decidiu usar seus poderes paranormais, entrar na cabeça de Mark Chapman e guiar seu corpo sem vontade ou consciência própria até a portaria do Edifício Dakota, em Nova Iorque, casa de um dos maiores ídolos do rock ‘n’ roll mundial, fazendo-o disparar cinco tiros no jovem homem, quatro dos quais, certeiros.                                          

Agora sim, mais um demônio estava morto. Deus, em sua ira e sabedoria inesgotáveis, depois de apoderar-se do corpo de Mark Chapman – a quem arruinou a vida, pois o coitado bom moço está trancafiado até os dias de hoje – e exterminou aquele ser repugnante de óculos redondinhos.

Bom, esse não parece o Deus que eu conheço. Aquele Deus de misericórdia. Esse é o deus do Pastor Marcos Feliciano, um Deus de discórdia.

Pastor

Acabei de ver um post do Jacaré Banguela no facebook. Ele divulgou um vídeo do novo desafeto da opinião pública brasileira, Marco Feliciano. O Banguela, assim como eu, ficou muito surpreso com as declarações do pastor deputado sobre a morte de John Lennon. Segundo o religioso, o mais genial dos Beatles foi morto porque, em certa ocasião, disse que eles eram mais famosos que Jesus Cristo. A frase, polêmica até hoje, é motivo de discussões entre fanáticos religiosos e beatlemaníacos. Eu, como beatlemaníaco que sou, vou defender o velho John aqui.

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A frase em questão vem de uma longa entrevista de John, para a amiga e jornalista Maureen Cleave, em 1966. Abaixo o polêmico trecho:

“O Cristianismo vai desaparecer. Vai diminuir e encolher. (…) Nós, Beatles, somos mais populares do que Jesus neste momento. Não sei qual vai desaparecer primeiro – o rock and roll ou o Cristianismo. Cristo não era mau, mas os seus discípulos eram obtusos e vulgares. É a distorção deles, que estraga o Cristianismo para mim.”

Agora a minha defesa, com base em declarações de Lennon, da jornalista Maureen Cleave e pesquisas do biógrafo de John, Phillip Norman, para John Lennon – A vida (Cia. das Letras, 2009) – isso me lembra de meus dias na faculdade de Direito, cujo curso eu não terminei, talvez por isso eu não me arrisque a prolongar minha defesa:

Após uma viagem ao Japão, onde os Beatles faziam turnê, John ficou assustado ao saber que no extremo oriente a porcentagem de pessoas que conheciam os Beatles era muito superior à porcentagem de pessoas que conhecia Jesus Cristo. Na cabeça de um cristão inglês, como John Lennon, aquilo era surreal. Como ele poderia ser mais conhecido que Jesus Cristo?

Mas temos que entender que no Japão e em grande parte do oriente a religião cristã não é a principal e, muitas vezes, nem chega perto de ser. Na entrevista à Maureen, John quis dar ênfase a isso. É só uma questão de reler o trecho acima.

Na Inglaterra, onde as pessoas não são tão fanáticas religiosas – vide exemplo em 2001, onde quase 400 mil pessoas declaram que sua religião era a seita Jedi, da saga Star Wars – a entrevista não foi vista com olhos negativos e nem Lennon foi apedrejado.

A grande polêmica veio quando a entrevista, fora de seu contexto, foi publicada nos Estados Unidos, país conhecido por seu fanatismo religioso, principalmente no sul, de onde surgiram seitas racistas como a Ku Klux Klan. Eles acusaram Lennon como se ele fosse o diabo encarnado ou o novo Hitler. Discos dos Beatles foram queimados, shows cancelados. Muito se falou na época e muito se fala até hoje.

Porém, o que me deixa mais possesso e, às vezes, furioso – quase briguei na escola há uns anos quando um colega evangélico me viu com uma camiseta dos Beatles e veio me dizer que John era o anticristo – é a quantidade de pessoas que relacionam essa entrevista, feita em 1966, com a covarde morte de Lennon em dezembro de 1980. Não sei vocês, fiéis leitores, mas isso me parece tão irreal, pensar que o Criador de toda essa imensidão que a gente chama de Universo, se daria ao trabalho de se importar com uma frase dita por um pedaço de carne daquela ilhota da Grã-Bretanha. Ele tem coisas melhores a fazer, como, por exemplo, o truco das sextas-feiras com Odin, Zeus, Buda e Alá.

O assassino, Mark Chapman, desferiu cinco tiros em John, sendo que quatro acertaram o ex-beatle – diferente da versão de Feliciano, que diz no vídeo que John levou três tiros e frisou que queria estar lá na hora do assassinato para dizer a Lennon, morto, que levara um tiro pelo pai, um pelo filho e outro pelo espírito santo. Nesse caso o pastor está mais pra pai Feliciano de Ogum. Oxalá!

Acho que vocês entenderam meu ponto. Mas mesmo assim sugiro uma linha de pensamento, por mais carola que pareça – minha intenção não é trazer fé e nem conforto a vocês… Se bem que tem muita gente ganhando um bom dinheiro nesse páreo. Bom, fica aqui o meu convite aos cultos semanais da minha Igreja Metropolitana dos Últimos Dias de Krypton. Temos a salvação e aceitamos cartões e tickets – aqui vai, depois de um breve devaneio:

As igrejas cristãs sejam católicas, evangélicas ou qualquer outra dissidência, pregam que Deus é o amor, é a perfeição, aquele que prega a bem-aventurança e a paz, a humildade e a vida sem sofrimentos. Então, por que esse mesmo Deus viria a condenar um de seus filhos apenas por algo dito ao vento, uma declaração descontextualizada e tão sem importância. O Deus que essas igrejas apresentam não é aquele Deus vingativo e semeador de pragas que protagoniza o velho testamento. Segundo o que o segundo livro da Bíblia nos conta, Deus enviou seu filho, Jesus, para que morresse pela salvação da humanidade e a libertasse de seus pecados. Então, novamente eu pergunto, meus filhos:

Por que Deus mataria John Lennon?

Jesus Cristo, aquele bom homem que nasceu na Galiléia há dois mil anos – oito mil anos mais jovem que Raul Seixas – seja ele o filho de Deus, um profeta, ou apenas alguém bem intencionado – eu não posso afirmar o que eu acredito, pelo fato de achar maravilhoso o mistério por trás disso tudo – deixou bons exemplos e ensinamentos que perduram há séculos e são seguidos até hoje pelos mais diferentes exemplares da raça humana.

John Lennon não era nenhum santo ou exemplo de caráter a se seguir – ainda mais trocar uma bela esposa à la rockabilly por uma japonesa maluca mais pálida que roupa limpa com OMO Progress – mas deixou sua marca na história cultural do planeta, isso é inegável. Semana passada, por sinal, uma cópia autografada de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band foi leiloada por 290 mil dólares – sem querer ser herege, mas eu nunca vi leilão de uma Bíblia autografada pelos apóstolos valer tanto.

bibliaonline

Pra mim, o que estraga a religião – eu entendo religião por seitas, igrejas ou meios que criados para que as pessoas expressarem sua fé e religiosidade como um sinônimo de fé – são os homens que se  valem das crenças das pessoas e se dizem santos por estarem pregando a “palavra” de Deus. Mas espalham suas ideias, muitas vezes racistas, homofóbicas, sexistas como se fosse a palavra de Deus. Na verdade ao perdurarem esses pensamentos estão apenas visando o enriquecimento e a conquista do poder. Isso existe na Igreja Católica, nas evangélicas e dentre todas as outras religiões que se espalham pelo mundo.

Isso não é religião e nem fé. A fé é algo inerente a cada um de nós e é individual. Muitos acreditam num Deus criador, outros em várias manifestações de divindades. Alguns têm fé na humanidade, no bem das pessoas. Não há razão em discutir isso, ainda é uma pergunta muito maior que nós.

Não olheis os nossos pecados, mas a fé que anima a vossa Igreja”. Nas missas que eu assistia nos meus tempos de catequese e crismas eu ouvia muito isso. É como se um político dissesse no horário de propaganda eleitoral “Eu roubo, mas eu faço!”… Parece que já ouvi isso em algum lugar.

maluf

Termino esse desabafo com um trecho de O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams. Nele há uma visão bem divertida sobre religião e a sobre a humanidade que inicia o primeiro livro da série. Lembrando que Douglas Adams era um ateu convicto, mas nem por isso era um herege – não que ele se importasse com isso.

“(…)Um número cada vez maior de pessoas acreditava que havia sido um erro terrível da espécie descer das árvores. Algumas diziam que até mesmo subir nas árvores tinha sido uma péssima ideia, e que ninguém jamais deveria ter saído do mar.

E, então, uma quinta-feira, quase dois mil anos depois que um homem foi pregado num pedaço de madeira por ter dito que seria ótimo se as pessoas fossem legais umas com as outras para variar, uma garota, sozinha numa pequena lanchonete em Rickmansworth, de repente compreendeu o que tinha dado errado todo esse tempo e finalmente descobriu como o mundo poderia se tornar um lugar bom e feliz. Desta vez estava tudo certo, ia funcionar, e ninguém teria que ser pregado em coisa nenhuma.

Infelizmente, porém, antes que ela pudesse telefonar para alguém e contar sua descoberta, aconteceu uma catástrofe terrível e idiota, e a ideia perdeu-se para todo o sempre (…)”

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PS1: O texto acima é de caráter meramente dispensável, se você gostou e tem elogios, boas intenções ou cartões com senha – sem a senha não vale. Depois, vai pedir o milagre pra Deus e Deus não vai dar – pode me mandar pela minha caixa postal. Mas se você tiver alguma crítica, ódio, vontade de me bater e afins, por favor, me procure no meu endereço pessoal: Av. Kim Il-sung, 1992, Apto 080, Pyongyang, na poderosa e próspera nação da República Democrática Popular da Coreia do Norte.

PS2: Eu não quis desrespeitar nenhuma crença nesse texto, nem ser taxativo. Tudo bem pra mim se você acredita em Buda, Chico Xavier, Silvio Santos, Homer Simpson ou outro que por ter muitas testemunhas é melhor não nomear aqui.

PS3: Caso queiram saber, as reuniões da Igreja Metropolitana dos Últimos Dias de Krypton acontecem às quartas e às sextas – exceto feriados e dias de provas – no endereço citado no primeiro post-scriptum acima. Lembre-se de trazer sua sunga vermelha para benção após a cerimônia. Vade retrum, Lex Luthor!

PS4: Ainda não foi lançado. Mais informações na E3 desse ano.

 

Texto de Bernardo Fontaniello

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