Julgamento da “Normalidade”

9 abr

Recordo-me de uma propaganda do governo federal a respeito de minorias. Ela dizia algo como “ser diferente é normal”, ou alguma coisa assim. Esta frase virou uma espécie de mantra de inúmeras ONGs, associações e grupos bem intencionados, mostrando que você não precisa ser como todo mundo, você só precisa ser você mesmo. Com certeza são ideias lindas, pena que a realidade não seja assim. O fato é que se uma pessoa, por alguma razão qualquer, foge dos padrões impostos pela sociedade, essa pessoa é julgada como sendo estranha e anormal, e por tanto, deve ser duramente reprimida em seu meio social, mesmo que suas “peculiaridades” não sejam sua culpa. E não escrevo isso por ouvir falar, legislo em causa própria.

Sou diagnosticado clinicamente com um tipo de fobia social chamada antropofobia. Falando de forma bem resumida, não me sinto a vontade em ambientes com muitas pessoas reunidas, e isso é desde a infância. Nunca gostei muito de gente, mas nos últimos anos tem piorado muito, a ponto de ter que sair carregado por desmaiar em uma festa. Até ai tudo bem, como eu disse não gosto muito de gente, evita-las pra mim é até agradável. O problema é que no dia a dia somos forçados a estar nestes lugares, seja em ônibus lotados, lojas em liquidação ou mesmo reuniões de amigos. E é ai que meus problemas aumentam. Só o fato de ter esta patologia já é algo bastante incomodo, mas ser julgado por isso é cada vez mais desagradável.

Por conta desta fobia desenvolvi algumas técnicas que me permitam estar fora da minha zona de conforto sem “pirar”. Uma delas é aumentar ao máximo o volume em meus fones de ouvido e fechar meus olhos, ir pra meu mundo. Tenho que fazer isso, mas como difere do comportamento normal das pessoas, é claro que está errado. Hoje mesmo estava vindo para faculdade e uma colega minha entrou, como sou educado cumprimentei e ela correspondeu cordialmente. Só que como o ônibus estava com muita gente por conta do horário, fechei meus olhos e fiquei na minha. Não estava incomodando ninguém, estava ali no meu cantinho esperando chegar ao meu destino. Só que quando abri os olhos para me situar, saber onde exatamente estava, percebi de relance que ela estava me olhando, e olhando de um jeito que conheço bem. Um misto de repulsa e estranheza que vejo em várias pessoas quando olham pra mim. Era como se eu fosse portador de alguma chaga contagiosa, ou algo assim. E por quê? Por não ser como todo mundo?

O pior de tudo é que sequer me abalei com aquilo, estava acostumado. Desde que me entendo por gente vejo isso, ouço que devo ter algum problema de cabeça ou coisa assim. Acabou se tornando um hábito, e não deveria ser. O que importa se eu não sou como todo mundo? Se eu tô cumprindo a lei e não prejudicando os demais, ninguém deveria sequer opinar na minha vida. Mas tudo bem. Francamente posso viver com esse estigma de louco, já me acostumei com ele, talvez eu até seja. Além do mais, a sanidade é muito chata.

Texto de Rafael de Paula

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Uma resposta to “Julgamento da “Normalidade””

  1. lucas mendes 10 de abril de 2013 às 2:44 AM #

    Os loucos abrem caminhos que depois serão percorridos pelos sábios.

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